Iniciou na Quarta-Feira de Cinzas,após a Terça-Feira de Carnaval, junto com a Quaresma, a Campanha da Fraternidade 2014, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB. O tema da Campanha neste ano é otráfico humano. Para entender um pouco mais sobre este assunto complexo e desafiador para nossa Igreja e nossa sociedade, a Assessoria de Comunicação da Diocese de Montenegro entrevistou o secretário-executivo da Campanha da Fraternidade da CNBB, Pe. Luiz Carlos Dias.
Em suas respostas enviadas por e-mail, diretamente de Brasília, Pe. Luiz esclarece que “trata-se de um crime organizado, que fatura mais de 30 bilhões de dólares por ano, com a venda e exploração de milhões de pessoas. Seus aliciadores estão infiltrados na sociedade, os quais se aproveitam, sobretudo, de pessoas em vulnerabilidade socioeconômica ou em migração. Nesse sentido, deve ser entendido como um grave problema social”.
Entrevistamos também o secretário de Centro de Estudos Bíblicos do Rio Grande do Sul (CEBI-RS), Edison Costa, que recentemente realizou um curso de formação sobre o tema da Campanha da Fraternidade para o Regional Sul III da CNBB. Ele esclarece sobre a importância de divulgar “este nefasto crime para toda a sociedade, para que todos fiquem sabendo que há pessoas que aliciam jovens para o crime da exploração sexual, que há pessoas sequestrando ou adotando de forma ilegal crianças para o tráfico de órgãos; que em pleno século XXI temos escravos e escravas, no campo e na cidade. Este crime só vai parar se toda a sociedade se unir no enfrentamento”.
Tráfico Humano: o ser humano como mero objeto de comercialização
Para o Pe. Luiz Carlos Dias, o tráfico de pessoas é uma das questões sociais mais graves da atualidade. “É um crime que clama aos céus”, defende
| Pe. Luiz Carlos Dias |
“O tráfico humano não é somente uma questão social, mas também eclesial e traz um desafio pastoral. A Igreja está comprometida no combate a esta atividade porque nas pessoas está em jogo a causa de Deus revelada em Jesus Cristo. E o que se faz a um destes pequenos, se faz a Jesus”. A afirmação é do Pe. Luiz Carlos Dias, secretário-executivo da Campanha da Fraternidade – CNBB, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à Assessoria de Comunicação da Diocese de Montenegro. Ele lembra que “a Campanha da Fraternidade é um projeto evangelizador da Igreja no Brasil, fruto do espírito quaresmal de conversão rumo à Páscoa. (...) Assim, a Igreja presta um serviço a toda população de nosso país, ao ressoar o convite à conversão e transformação da realidade, para que as sementes do Reino de Deus floresçam e gerem vida em abundância”.
Entrevista
Pe. Luiz Carlos Dias - O tráfico humano é uma das questões sociais mais graves da atualidade. Recentemente, o Papa Francisco se referiu a esta prática criminosa como uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas. É um crime que clama aos céus. A Igreja Católica no Brasil foi uma das pioneiras no enfrentamento ao tráfico humano. Desde 1975, enfrenta o trabalho escravo ou análogo ao trabalho escravo, um dos ramos do Tráfico Humano, com a Comissão Pastoral da Terra - CPT.
Hoje este trabalho evangelizador se estende a outras modalidades do Tráfico Humano, com pastorais ligadas à mobilidade humana, no campo e na cidade, com as redes de religiosos(as) Thalita Kum e Um Grito Pela Vida, com as Comissões de Justiça e Paz e a Pastoral da Mulher Marginalizada.
Estas atividades são acompanhadas e articuladas na CNBB pelo Grupo de Trabalho de Enfrentamento ao Tráfico Humano. A interpelação advinda do sofrimento e morte de irmãos e irmãs na cruel situação de tráfico humano, em suas diversas modalidades, e o testemunho das organizações de nossa Igreja proponentes deste tema, levaram nossos bispos a considerá-lo oportuno para uma Campanha da Fraternidade.
Diocese de Montenegro - Didaticamente falando, quando tratamos de tráfico humano, estamos nos referindo especificamente a que tipo de crime?
Pe. Luiz Carlos Dias - Ao crime que torna o ser humano mero objeto de comercialização. As pessoas nas garras do tráfico humano são vendidas para serem exploradas em determinadas atividades sob chantagens, coação e mesmo cárcere.
As atividades exploratórias mais comuns são: trabalho escravo ou em condições análogas ao de escravo, exploração sexual, adoção ilegal e até casamento.
Trata-se de um crime organizado, que fatura mais de 30 bilhões de dólares por ano, com a venda e exploração de milhões de pessoas. Seus aliciadores estão infiltrados na sociedade, os quais se aproveitam, sobretudo, de pessoas em vulnerabilidade socioeconômica ou em migração. Nesse sentido, deve ser entendido como um grave problema social.
Diocese de Montenegro - O que caracteriza o olhar da Igreja Católica brasileira e da CNBB sobre o problema do tráfico de pessoas?
Pe. Luiz Carlos Dias - A Igreja é provocada a dar uma resposta de amor (cf. 1Jo 4,19), por meio dos discípulos missionários, às situações que atentam contra a dignidade dos pequeninos e injustiçados, a exemplo das vítimas do tráfico humano. O tráfico humano não é somente uma questão social, mas também eclesial e traz um desafio pastoral.
A Igreja está comprometida no combate a esta atividade porque nas pessoas está em jogo a causa de Deus revelada em Jesus Cristo. E o que se faz a um destes pequenos, se faz a Jesus (cf. Mt 25,31-46) (Texto Base Campanha da Fraternidade 2014, n. 3.3).
Diocese de Montenegro - Como a Igreja pode ajudar a minimizar e a combater o drama do tráfico humano? Qual a importância da conscientização nesse sentido?
Pe. Luiz Carlos Dias - O primeiro passo é fomentar a fraternidade. Somos todos irmãos e irmãs, chamados à exercermos uma edificante co-responsabilidade de uns para com os outros, sobretudo diante das injustiças que ferem a dignidade e cerceiam a liberdade humana.
Acerca do Tráfico Humano, a conscientização é muito importante para que as pessoas possam ter “olhos” para perceberem as ocorrências deste crime, hoje disseminado em nossa sociedade, pois ainda há quem sustente que o Tráfico Humano é mera lenda urbana.
Diocese de Montenegro - O senhor pode explicar o lema da CF 2014: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”? O que isso representa considerando o tema do tráfico de pessoas? Como o conceito de dignidade aparece aqui?
Pe. Luiz Carlos Dias - A liberdade é componente essencial da estrutura do ser humano. Não existe dignidade sem a liberdade, “fostes chamados para a liberdade” (Gl 5,13). O reto exercício da liberdade requer precisas condições de ordem econômica, social e política. Liberdade que é cerceada pelo crime do Tráfico Humano.
A liberdade do ponto de vista cristão nos foi doada na cruz de Cristo, conquistada com seu sofrimento, morte e ressurreição e oferecida a todos indiscriminadamente. É para esta liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1).
É liberdade para uma vida nova, no Espírito, liberdade que leva a pessoa a sair de si e servir aos outros, pelo amor, é liberdade que gera o compromisso com a justiça e o Reino (Rm 6,16).
Diocese de Montenegro - Em que medida o tráfico de pessoas corrompe o ser humano e a sociedade?
Pe. Luiz Carlos Dias - O Papa Francisco lembra que quando as pessoas e a sociedade, como um todo, já não se sentem responsáveis por situações que atentam contra a dignidade do ser humano, como a do Tráfico de Pessoas, perde-se a sensibilidade para com o sofrer do outro e arrefece o senso de co-responsabilidade.
O resultado é a difusão da indiferença ou globalização da indiferença. O Papa Francisco ainda acrescenta: “Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de padecer com”.
Jesus nunca relativizou a dor e a aflição humana, não permaneceu indiferente ao sofrimento do outro. Foi ao encontro da miséria alheia. Sem esta atitude a sociedade tende a dilacerar-se, com os elos que a unem, cada vez mais frágeis.
Diocese de Montenegro - Qual a importância de debater este tema em ano de Copa do Mundo em nosso país?
Pe. Luiz Carlos Dias - A Copa do Mundo oferece oportunidade de ganhos para vários setores da economia, inclusive para as redes do Tráfico Humano. No texto base da Campanha deste ano, lemos que a cultura atual como cúmplice indireta do tráfico humano, faz da sociedade uma consumidora de pornografia desenfreada.
O sexo é apresentado como mercadoria e a pessoa como objeto. Nesse sentido, floresce o turismo sexual em algumas partes do planeta. Infelizmente, nosso país é visado por muitos no exterior para esse tipo exploração. Que a população esteja atenta e denuncie eventuais situações do tipo.
Diocese de Montenegro - Por que é importante debater temas de alta relevância social, como é o caso do tráfico humano, na época da Quaresma, que é justamente a proposta da Campanha da Fraternidade?
Pe. Luiz Carlos Dias - A Campanha da Fraternidade é um projeto evangelizador da Igreja no Brasil, fruto do espírito quaresmal de conversão rumo à Páscoa. Se inicialmente a Campanha da Fraternidade esteve a serviço da renovação da Igreja a partir das proposições do Concílio Vaticano II, logo se voltou para a realidade do povo brasileiro.
Foi quando se voltou a situações em que a fraternidade estava ferida, visando transformá-las e contribuir para o avanço em vista de uma sociedade justa e solidária. Assim, a Igreja presta um serviço a toda população de nosso país, ao ressoar o convite à conversão e transformação da realidade, para que as sementes do Reino de Deus floresçam e gerem vida em abundância.
“O tráfico de pessoas caminha pela obscuridade, nas sombras”
Segundo Edison Costa, a situação de vulnerabilidade coloca muitas pessoas em situação propícia ao tráfico humano
Leia a entrevista a seguir:
Diocese de Montenegro - Como compreender que a sociedade brasileira ainda desconheça os crimes envolvidos na prática do tráfico humano?
| Edison Costa |
Edison Costa - A prática criminosa do tráfico de pessoas é invisível, ou seja, há dificuldades de se visibilizar este crime. Não há estatísticas. O que temos são notícias sobre os casos. Diferente do tráfico de drogas, que é algo visível, o tráfico de pessoas caminha pela obscuridade, nas sombras.
As vítimas não denunciam e muitas vezes nem se percebem vítimas, tal é a situação de miserabilidade ou de vergonha em que vivem. Assim é no caso do tráfico para exploração sexual ou do trabalho escravo.
Diocese de Montenegro - Quais são as situações de tráfico humano mais conhecidas no Rio Grande do Sul?
Edison Costa - O Rio Grande do Sul tem índices baixos de tráfico de pessoas, mas já está apontando nas estatísticas com o trabalho escravo e trabalho análogo à escravidão. Temos notícias do tráfico de pessoas para exploração sexual na região metropolitana de Porto Alegre, Caxias do Sul, Rio Grande e Pelotas; tráfico de mulheres via fronteiras de Livramento e Jaguarão; trabalho escravo e análogo à escravidão na região da Serra, para colheita das frutas, nas grandes obras portuárias e de plataformas.
O fato de termos baixos índices pode ser justificado pela nossa favorável condição socioeconômica, mas pode ser também por não termos conhecimento ou acesso a números sobre este tipo de crime. Assim, não temos registros do que acontece. O que não conhecemos, não vemos; pode estar ao nosso lado, mas não percebemos que pode se tratar de um crime. Temos centenas de pessoas desaparecidas em nosso estado. Para onde estas pessoas foram? Estão vivas? Foram vítimas do tráfico? Não sabemos, mas podemos e devemos suspeitar que sim. São vítimas da exploração sexual ou da retirada de órgãos.
Diocese de Montenegro - Poderia citar os números mais impactantes envolvendo o tráfico de pessoas no Brasil e no mundo?
Edison Costa - Estimativas oficiais indicam a existência de 2,5 milhões de pessoas vitimadas por essa atividade criminosa. (Entre as dificuldades encontradas para abordagem e enfrentamento desta modalidade de crime, está a fragilidade de dados oficiais, em parte pelo silêncio das vítimas temerosas de punições pelos traficantes).
Anualmente, gera ao menos 32 bilhões de dólares para os traficantes, valor superado somente pelos crimes de tráfico de armas e de drogas. Desse montante, 85% provêm da exploração sexual (dados da ONU). No Brasil os números de 2012 são os seguintes: 195 casos (fiscalizados) de trabalho escravo, envolvendo 2.776 trabalhadores libertos; no Rio Grande do Sul tivemos três casos (fiscalizados), envolvendo 59 trabalhadores libertos.
Tantos outros devem estar ocorrendo, mas não há denúncia e, assim, não se consegue encontrá-los. A fiscalização não dá conta da dimensão do estado e do país. Necessitamos de denúncia por parte dos trabalhadores e/ou de pessoas próximas que têm conhecimento deste tipo de crime. Assim, a fiscalização se torna mais eficiente, indo diretamente ao problema. Em 2012 a OIT – Organização Internacional do Trabalho, estimou que 20,9 milhões de pessoas são vítimas da exploração sexual e do trabalho forçado. E que mulheres e jovens são as maiores vítimas (55%).
Diocese de Montenegro - Em que sentido o tráfico de pessoas pode ser apontado como uma forma moderna de escravidão?
Edison Costa - A situação de vulnerabilidade coloca muitas pessoas em situação propícia ao tráfico. Exemplo disso são os migrantes nas fábricas de roupa em São Paulo, ou os trabalhadores rurais nas colheitas de frutas e corte da madeira, como é o caso do Rio Grande do Sul. Pessoas que, por necessidade, trabalham 12 ou até 18 horas por troca de um prato de comida, que por vezes não tem condições de ser ingerida (por estar podre). Há os trabalhadores que estão em situação legal, mas trabalham em condições insalubres, dormem em verdadeiras senzalas – caso dos trabalhadores de Rio Grande (20 trabalhadores dormindo em um quarto onde deveriam estar no máximo cinco pessoas.
Diocese de Montenegro - Quais as ações pontuais do Regional Sul III da CNBB no sentido de fomentar e difundir o tema e o lema da Campanha da Fraternidade 2014?
Edison Costa - A campanha no estado vai focar na prevenção e no enfrentamento às modalidades de tráfico. Contamos com uma rede fantástica de pessoas que podem ajudar o poder público a enfrentar esta situação. Nossas comunidades se espalham por todo o país e se comunicam entre si. Queremos informar todos e todas desta rede sobre as formas que o tráfico de pessoas age em nossa sociedade e mostrar os meios que temos para enfrentá-lo.
Desejamos que cada pessoa seja um combatente deste crime perverso e invisível. Para tanto estamos visitando todas as dioceses para dar formação, colocando à disposição vários materiais escritos, filmes, sites que informam e formam os agentes de pastorais, padres, religiosos e religiosas e todas as pessoas que buscam uma sociedade mais digna e mais humana.
Diocese de Montenegro - Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?
Edison Costa - Gostaríamos de pedir que todas as pessoas de boa vontade buscassem informação sobre o tema e desenvolvessem em seus espaços de atuação algum tipo de reflexão.
Nosso maior objetivo é divulgar este nefasto crime para toda a sociedade, para que todos fiquem sabendo que há pessoas que aliciam jovens para o crime da exploração sexual, que há pessoas sequestrando ou adotando de forma ilegal crianças para o tráfico de órgãos; que em pleno século XXI temos escravos e escravas, no campo e na cidade.
Este crime só vai parar se toda a sociedade se unir no enfrentamento.
Graziela Wolfart, assessora de Comunicação da Diocese de Montenegro
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