SAPATO ITALIANO


Sapato Italiano
Oscar Bessi Filho

1.

Pedi uma atenção especial ao seu nariz.
Eu ainda lembrava da última vez em que estivera ali. Saía da aula noturna e alguns amigos me pediram para conversar. Primeiro sem jeito, mãos amistosas em meu ombro, dizendo que andavam preocupados comigo. Depois veementes, me empurrando um chope e outro e mais outro, protestando, essa mulher é chave de cadeia, dá o fora logo e volta pra tua casa. Eu fiquei com raiva. Brigamos, o Toninho chegou a me acertar um soco na cara, revidei, rolamos, derrubamos mesa, quebramos garrafas. Nunca mais conversei com nenhum deles. Confesso que cheguei, sim, a cogitar isso de me arrepender. Mas foi desconfiança efêmera, débil. Eu estava convicto sobre o que sentia e certo das minhas decisões.
Naquela noite, porém, jamais me passaria pela cabeça voltar àquele bar, daquele jeito. Fazer o quê. É a vida.
E a morte.

2.

Meus olhos ardiam e demorei a me adaptar a pouca luminosidade do quarto. Sem saber quanto tempo ao certo se passou, mas já achando demais. Louco para sair daquela situação ridícula em que me encontrava. Literalmente metido até o pescoço. Enfiado embaixo de uma cama, nu, molhado e com a cabeça doendo. Esfreguei as pálpebras com uma raiva impaciente, punhos fechados, os dedos úmidos piorando ainda mais a ardência nas pupilas. Merda. Nada mais desagradável que essa sensação de impotência. Abri bem os olhos e levantei o lençol que roçava o tapete. Levei um susto.
Os pés de Cecília quase tocaram o meu rosto. Os pés que eu amava beijar nas tardes de sábado, enfiado entre os seus lençóis azuis - ela adorava azul, o azul celeste, a cor se espalhava por toda a parte, no quarto, no carro, no escritório, infinitos azuis iguais aos dos seus olhos -, fingindo ver um filme de Almodóvar. Os pés de Cecília. Ao alcance dos meus lábios. Isso não era bom.
O que ela estava fazendo no quarto?
E, se já foi estranho ver os pés de Cecília ali, outra vez, pior foi ver que ainda pingavam a água do chuveiro. Do nosso banho interrompido. Quanto tempo se passou? Por que ela ainda estava daquele jeito?
A descoberta de que, naquele instante, os pés de Cecília não estavam sozinhos no quarto, foi ainda mais trágica. Esfreguei os olhos outra vez. Botas. Um par, dois, três. Botas, botas e mais botas, pretas, iguais, invadindo o quarto e cercando os pés úmidos de Cecília, pés que exalavam banho, perfume e nudez. Foi quando tentava ouvir algo do que conversavam que, por entre um par de botas, surgiu um par de olhos. E outro. Olha aqui!, alguém gritou, encontramos o cara! E um sem-número de mãos peludas e ríspidas me puxaram, sem qualquer cerimônia ou gentileza. Bati a cabeça na cama e reclamei, que merda era aquela? Mal abri a boca e as mãos viraram cacetetes. Não ficou centímetro do meu corpo sem levar uma porrada. Costas, pernas, braços, saco. Eles me viraram de bruços e me algemaram, um idiota ainda deu umas cacetadas na minha bunda despida. Jogado no chão, voltei a ficar com os olhos quase encostados nos pés de Cecília. Que correram.
"Por que você matou o velho?"
Pensei em perguntar que velho, mas não precisou. Levantaram-me pelos cabelos e vi, sobre a cama, o paletó novinho, amassado, cheio de sangue. Ele, o velho, o maldito, o corta-foda do Astrogildo. Tive vontade de cuspir na cara dele e esganá-lo, por ter interrompido o nosso banho, por falar aquele monte de safadeza para a Cecília, a minha Cecília, minha, só minha! Quis matá-lo, lembrando tudo o que ouvira daquela boca porca. Mas ele já estava morto.
E a polícia, pelo jeito, não tinha qualquer dúvida de que eu era o assassino.

3.

"Não sei o que aconteceu. Estava embaixo da cama e creio ter adormecido. Acordei com os soldados invadindo o quarto."
O delegado não acreditou na minha versão, é claro. Eu também não acreditaria. O escrivão que digitava meu termo ria, escrachado, a cada trecho que eu narrava. O meu advogado pediu um tempo e me chamou para conversar numa saleta, nos fundos da delegacia. Acendeu um cigarro soltando uma baforada na minha cara e disse que tinha vontade de me bater. Ele também não acreditava em nada do que eu dizia.
Mas era verdade. Eu e Cecília tomávamos banho, juntos. Íamos trepar no chuveiro, como a gente sempre fazia, quando tocou a merda da campainha. Era o Astrogildo. Cecília mandou que eu me escondesse.
"Quem era o amante, afinal? Você ou ele?"
Nem eu, nem ele, gritei. O advogado pôs o indicador nos lábios, olhando para os lados, preocupado. Quer piorar a situação?, perguntou, sussurrando, e agora me batendo de verdade, ele que adorava me bater desde os tempos do futebol. O Fábio, ali Doutor Fábio, criminalista porta de cadeia. Ele tinha sido um dos que quis me convencer a largar Cecília e voltar para casa. Conhecíamo-nos desde o secundário. Ele, como os outros, não via com bons olhos o meu envolvimento com a ex-amante de um velho casado.
Fazer o quê. Eu a amava.
Cecília era minha namorada, que droga. O velho Astrogildo não passava de um ex, apenas isso, o reles de um ex, eu expliquei, furioso, mas agora falando baixo. Fábio riu. O que ele foi fazer lá, então? Eu não sabia, e era verdade, eu não tinha idéia. Também perguntei para a Cecília.
"E ela?"
"Sei lá, acho que também não sabia."
"E por que, então, ela mandou que você se escondesse embaixo da cama?"
Ora, e eu é que ia saber? Também quis achar o motivo, entender, mas Cecília não respondeu, só disse que era rápido, que eu tivesse paciência e que ela me amava, beijo, beijo. E ela falando que me amava e me beijando, rosto molhado do chuveiro, que importância tinha o Astrogildo aparecer?
"Rafael, é o seguinte. Se não foi você quem matou o velho, então foi ela. É melhor contar logo tudo. Ou vai abraçar por essa vagabunda?"
Epa, ela não era vagabunda. E eu não vi nada, respondi. Era verdade.
Quer dizer, quase verdade.
Para não dizer que não vi nada, eu vi os pés de Cecília entrando no quarto logo após eu ter me escondido. Espalhando as águas e os perfumes do amor que iríamos fazer.
E seguidos, de perto, pelos sapatos italianos dele.

4.

Num impulso, quis beijar os seus pés brancos. Sempre fui gamado pelos pés de Cecília, mesmo quando ainda não tínhamos envolvimento algum. E, quando nos amamos pela primeira vez, não suportei a vontade incontrolável de lhe morder o calcanhar, as pontas dos dedos, as extremidades perfeitas de suas carnes que resumiam tão perfeitamente o corpo todo. Outra perfeição, sua, era o nariz. E me dediquei uma noite inteira aos seus pés e ao nariz, entre massagens suaves, beijos, lambidas e carícias de um devoto. Lembro de ter chorado abraçado aos pés de Cecília após o orgasmo. De ter pedido para tatuar o seu nariz no meu braço, mas isso ela não permitiu. Nem acrescentando os olhos. Amar Cecília era descobrir a mágica dos seus extremos, e talvez tenha eu tenha dito isso naquela noite do chope, aos meus amigos. Acho que foi justamente aí que a maioria se retirou da mesa, depois da briga e do deixa-disso, desistindo de me convencer. Inclusive o Fábio.
Não entendia nada de mulher, o Fábio. Nem de nariz ou pés. Muito menos de pés. Tinha chulé, por sinal, era o sujeito com maior chulé do time.
Cecília. Eu poderia passar a eternidade passeando por suas veias, explorando cada poro de um extremo a outro do seu corpo, distribuindo meus beijos gulosos das narinas aos metatarsos. Nunca me considerei, por isto, um anormal. Cristo pregou a humildade lavando os pés dos apóstolos. Eu pregava o amor por Cecília através da mesma simbologia. E os banhava. Como banhava o seu nariz. Era o que eu faria naquela tarde, banhar seu corpo, se a campainha não tivesse cortado o clima para anunciar o velho Astrogildo.
O importante é que ela voltava para o quarto. Para mim. Ela e os seus pés. Descalços, úmidos, ao alcance de uma mordida, pedindo meu toque. Cheguei a esticar o pescoço no limite do suportável e fazer um biquinho, os olhos quase fechados antecipando o prazer.
Quase fechados.
Foi quando vi aquele par de sapatos pretos atrás dos seus pés. E achei, sinceramente, que eles estavam próximos demais.

5.

Eu estava me lixando para o dono daquelas patas. Mas percebi que os pés dela continuavam descalços. E, pior, ainda pingando o que restava do nosso banho. Já era o suficiente para excitar qualquer mortal. Eu a abraçava sob água morna do chuveiro, muito além das preliminares, quando ouvimos o interfone. Cecília soltou um gritinho abafado. Meu deus, deve ser o Astrogildo!
"O Astrogildo?", estranhei. "O que esse sujeito quer aqui?"
Não sei, ela resmungou, fugidia. Pode até não ser ele, quem sabe é o síndico, vou verificar. E foi, apressada, nervosa, correndo em direção à porta. Pedi que se vestisse. Numa fração de segundo ela voltou, se enrolando numa toalha e me deixando sozinho. Minha empolgação murchando feito balão desatado. Uma óbvia e incômoda desconfiança ardendo nas pálpebras. Desconfiança ou xampu derramado, o fato é que ardia o olho.
Astrogildo. Se já tinham terminado tudo, o que aquele infeliz ainda queria, visitando Cecília? Torci para que não fosse o sujeito. Não queria brigar. Já tinha problemas demais, pensão e aluguel atrasados, minha ex-mulher mandando recados ameaçadores, o diretor cobrando mais empenho nas aulas e insinuando substituição, os amigos de mal comigo. Não teria cabeça para mais um conflito. Não é ele, repeti uma dúzia de vezes, apertando as mãos, como quem reza. Não é ele, não é, não é!
Era.
Entendi quando Cecília voltou, esbaforida, o olho arregalado.
"Corre!", ela sussurrou, "te esconde nalgum canto."
"Eu? Me esconder?"
"Por favor, não faça perguntas. Depois eu te explico."
"Não vou me esconder coisa nenhuma. Somos namorados, lembra?"
"Eu sei, só não quero complicar as coisas."
"Complicar? Complicar o quê, se não temos nada a esconder?"
"Prefiro não magoar o Astrogildo."
"Que conversa é essa, Cecília?"
Ela fez uma cara impaciente. Você precisa entender, ele pagou este apartamento, sempre me deu tudo, não posso simplesmente proibi-lo de aparecer.
"Tudo bem. Mas esse sujeito precisa entender que agora você está comigo, cacete!"
"Rafinha.", ela ronronou, pondo os dedos sobre meus lábios, passando os pés entre as minhas pernas, no meu pau, nos pêlos molhados, aproximando aquele hálito que sempre me convencia, "Tenta entender, talvez seja até uma chance de te ajudar, afinal não tenho o que você me pediu".
Respirei fundo e concordei, torcendo o nariz. Ela imitou o gesto, com aquele nariz perfeito, e eu o mordi.
O Astrogildo era engenheiro. Sócio-proprietário de uma empresa com filiais espalhadas pelo país. Na troca de governo, fora nomeado para um cargo federal de média importância, contrapartida pelas generosas doações de campanha. Casado, o triplo da idade de Cecília. E avô.
Quando a conheci, não sabia daquele relacionamento. Eu era professor de educação física em colégio público e, para conseguir rendas extras ao meu salário mirrado, inventei uns bicos como personal trainner. Coloquei anúncios em jornais. A clientela era pouca, mas já me ajudava a manter a casa. Afora alguns doentes ou extremamente tímidos, que optavam por ter aulas em casa, a maioria preferia as academias. E a cada semana nascia uma nova em cada esquina. Tempos modernos, de gente estressada, obesa e com pressa. O mercado era bom. Entrei. O problema é que já tinha muita gente naquele ramo. Comecei a me sentir como aqueles homens no garimpo de Serra Pelada. Cada oportunidade era disputada por um formigueiro.
Cecília me ligou numa tarde de primavera, quando eu praticamente já desistira de anunciar, pois estava mais gastando do que propriamente recebendo pelos trabalhos. Explicou que trabalhava no escritório não sei de que ministério, quatro horas por dia. E, como estava em férias na faculdade, queria colocar o corpo em forma. Nem precisava, foi o que constatei logo que a conheci, mas não disse. Vendedor de guarda-chuvas não alerta o cliente que já vai abrir sol outra vez.
Na primeira visita, para acertar valores e horários, tentei desviar, sem muito sucesso, a atenção daquele pés, à mostra num par de sandálias delicadas. O resultado foi um preço ridículo que me deixou entusiasmado mesmo assim.
Ela morava sozinha num apartamento amplo, zona nobre. No início, confesso que me esforcei para encará-la, apenas como uma aluna de pagamento certo. Bonita, sim. Linda. O tipo com que eu estava acostumado a me deparar. Raramente mulheres feias investem o seu dinheiro na busca da boa forma. Eu estava acostumado e saberia me controlar.
Mentira.
O problema começou já na primeira semana de aula.
Numa quarta-feira mormacenta, ela me convidou para tomar um suco depois dos exercícios. O jeito meigo de falar e sorrir, a sensualidade que acompanhava os pequenos gestos, o olhar incandescente que me desconsertava. O nariz perfeito. E os pés. Dentro das mesmas sandálias, saltando como diamantes. Conversamos banalidades por uma hora ou mais. Aquilo foi bom, muito bom. E, na semana seguinte, eu me perguntei o tempo todo se seria convidado para outro suco. Fui.
Virou costume. Nossas conversas se esticavam até bem depois do horário das aulas, na sacada do apartamento, olhando a cidade adormecer. Tomando batida de maracujá, que ela adorava. Eu preferia abacaxi, mas nem cheguei a comentar, mudei de gosto rapidinho. Era ótimo estar com Cecília. Era ótimo espiar seus pés pulando para fora das sandálias e acompanhando o entusiasmo com que falava de sua cidade no interior, da saudade da família, das coisas que fazia quando menina.
Passei a aguardar com ansiedade aqueles momentos como se fosse o que de mais importante me acontecia. Não me concentrava mais em coisa alguma. Nem preparava as aulas para a escola. Para alegria da meninada, atirava uma bola de futebol e outra de vôlei, decretava horário livre e ia me sentar num canto do pátio, sob as árvores, fingindo olhar os jogos. A cabeça no apartamento de Cecília.
O diretor tinha razão. Eu merecia ser substituído.
Em casa, passei a brigar o tempo todo com a minha mulher. Marta percebeu, elas sempre percebem essas coisas. Eu andava distante, explosivo, isolado, não ouvia as perguntas dos filhos, pouco ou quase nada comia. Já com Cecília era o contrário. Tudo vibrava ao meu redor e estávamos cada vez mais próximos, íntimos, cúmplices. Ela confessava como era ruim morar sozinha, falava de suas carências e medos, de sobressaltos. Eu reclamava do meu casamento frustrado e perguntava se haveria uma chance de recomeçar, fazendo pose de vítima das circunstâncias. Truque mais vencido que a ceroula da minha bisavó. Mas ela fingia cair, e respondia que sim, que a vida não estava terminada, e me olhava fundo, sob uma brisa de boa nova que refrescava o meu coração.
Até que, numa noite em que o calor transcendia as paredes, o inevitável aconteceu. Eu mordi do seu nariz até os pés e tive um orgasmo.
A desgraçada só foi me contar do Astrogildo muito tempo depois. E isso porque eu descobri uma cueca dele no cesto de roupas. Alegou que já estavam terminando tudo, devia ao velho uma grande força na vida e na carreira, portanto não poderia, nem conseguiria, ser tão ingrata.
Juntei as pontas. Nunca perguntei, mas me intrigava aquele emprego de secretária sem concurso no ministério, um quase nada de horas para trabalhar em troca de um salário para lá de robusto. Cecília se justificou, vencer sozinha seria impossível, era do interior, não teria chances no mercado se não se valesse de alguns truques. Tinha sonhos, muitos, e queria realizá-los. É um direito meu, Rafa, nossa sociedade é injusta com as mulheres. Nossa defesa é fazer esse preconceito nos beneficiar de alguma forma e virar o jogo. Fiquei pensando no assunto, de início contrariado. Depois massageei os seus pés e concordei, sem evitar uma comparação com Marta. Minha mulher - que eu já decidira ser ex-mulher, só faltava avisá-la - já havia desistido de todos os seus sonhos, há muito tempo, em nome de cuidar da casa e dos filhos. Ocultei o cuidar de mim, que deveria, sim, constar nas renúncias de Marta, talvez fosse a principal de todas elas. Que burra, comentou Cecília, como ainda pode existir gente assim, que renuncia à própria vida?
Brigamos.
Culpa do Astrogildo. Cobrei não ter me contado antes. Ela me cobrou ainda estar casado. Discutimos sobre as nossas vidas, qual era mais errada, ou menos certa, e fizemos as pazes. Assim tocamos os dias. Cecília ronronava, me arrastava para a cama, eu devorava seus pés. Trepávamos como loucos e voltávamos a brigar, eu ia embora contrariado, jurando nunca mais tornar a vê-la. Retornava no outro dia, pedindo desculpas, beijando o seu corpo inteiro pés e a amando. E brigando novamente. Até que decidi dar um ponto final em tudo. Encararíamos uma relação séria, esquecendo o passado de cada um, abdicando de tudo o que não fosse exatamente nosso. Ou terminaríamos.
Terminamos.
Voltamos um mês depois. Ela com saudade, talvez, de um sexo bem feito. E eu ávido por seus pés e nariz. Dali em diante seríamos nós dois e ninguém mais, para sempre, decidimos.
Até que veio aquela visita inesperada do Astrogildo. E a conversa de eu ter que me esconder embaixo da cama.

6.

"Depressa, ele já está subindo!", Cecília gritou, dando pulinhos aflitos no meio do quarto, enquanto eu tentava entrar no armário e não cabia, procurava outro canto e sobrava perna. Estudando alternativas sem qualquer vontade de resolver o problema. "Aqui!", ela sussurrou, apavorada. A campainha insistindo.
"Depressa, embaixo da cama!"
"Ah, não, Ciça. Embaixo da cama?"
"Cala a boca e entra ali!"
"É muita humilhação. Coisa de amante barato."
"Ai, Rafinha! Me ajuda, né..."
Beijo gelado no nariz, pé passando na perna, no pau. Fui.
Fiquei ali o que me pareceu uma vida inteira. Esperando, ansioso, a hora em que ouvisse a porta da sala batendo em despedida e o vozeirão rouco do Astrogildo desaparecendo de uma vez por todas. O tempo passou e a espera começou a me dar sono. Cochilei, e tive um sonho estranho, uns caras armados cobravam a dívida que me fizera pedir dinheiro emprestado à Cecília. Acordei, de repente, e dei de cara com os pés dela, literalmente na minha cara, molhando o carpete e nus.
E, numa quase nada de distância, os sapatos dele.
A tensão do instante não me impediu de prestar atenção nos calçados do sujeito. Nunca tinha visto um par igual àquele. O couro reluzia como se fosse mármore. A marca impressa na mínima plaqueta de prata. Fratelli Rossetti. Muita coisa para alguém sair por aí, pisando em titicas de cachorro e urina de bêbados pelo centro da cidade. Desperdício.
E eu ali, escondido embaixo da cama, ao lado do meu tênis de futebol de salão furado no mindinho. Contrabandeado, ainda por cima.
A queda de um vulto a minha esquerda acabou me despertando da admiração pelos sapatos. Meu coração veio à boca. Vi a toalha azul-celeste no chão, formando uma boca imensa que ria da minha desgraça. A mesma toalha na qual Cecília se enrolara para atender a porta. Ela estava nua naquele instante. Ao lado dele. Merda! Ela não podia fazer aquilo comigo.
Estiquei o olho para tentar conferir o resto do corpo, mas só cheguei até o joelho e nem sinal de um pano qualquer sobre as carnes brancas. Dei um soco contido no carpete, a raiva me emprestando um calor vulcânico que ia dos pés à cabeça.
"Fique quietinho aí, será rápido.", ela me garantiu, antes do Astrogildo entrar, a cabeça invertida entre as pernas, espiando-me na incômoda situação com aquele olhar de quem agradece e pede desculpas ao mesmo tempo. Cretina.
Também, quem mandou pedir dinheiro? Quem mandou atrasar pensão e aluguel?
Fiquei esperando que ela lembrasse da minha presença e se tocasse, ou revelasse ser aquilo tudo uma armadilha para o engenheiro, não para mim. Um grito de pavor, protestos escandalizados, palavras fortes o enxotando, perguntando o que era aquilo, entrar no quarto de uma mulher comprometida? E nua?
Que nada. Ao contrário, ela sorriu. Eu sabia exatamente quando Cecília estava sorrindo, mesmo que estivesse calada e de costas para mim. Mesmo que eu estivesse escondido embaixo de uma cama no outro lado do mundo. Não tive dúvidas, Cecília sorriu naquele instante. E o Astrogildo sorriu também, certamente agradecido por todos os sorrisos desnudos na pele dela.
Ouvi claramente quando o velho disse estar com saudades e outras porcarias melosas. E que ela continuava linda. Linda é a minha pica!, eu quis gritar. Mas Cecília pareceu gostar daquilo, nem lembrando mais da minha existência. O tênis paraguaio, que pede empréstimo, naturalmente seria pisoteado pelos elogios de um sapato italiano. Que banca tudo. Vida de merda!
Eu controlava a distância daqueles pés grã-finos em relação aos dela. A cada passo que davam se aproximando eu tinha um novo sobressalto, suando frio. Cheguei até a assoprar, para afastá-los. Então, num movimento ágil, os pés dele também se descalçaram e senti um volume sobre a minha cabeça: o Astrogildo sentou na cama. Em seguida, Cecília sentou-se ao seu lado. Ou deitaram, os dois. Quase gritei.
Naquele instante o meu celular tocou. O som vinha das roupas, amontoadas às pressas junto do tênis, ao meu lado. Procurei o telefone, nervoso, minhas mãos tremiam. O que é isso?, o Astrogildo perguntou. Deve ser o vizinho, disfarçou Cecília, e começou a tossir. O negócio tocando e nada de eu encontrá-lo. Parece tão próximo, insistiu o velho. Mas não é, ela gritou. Calma, meu amor, se você diz que não é, então não é.
Meu amor? Como assim, "meu amor"?
O aparelhou se calou no exato instante em que o encontrei, enfiado no bolso traseiro da calça. Passei a mão na testa suada, não sei se o nervosismo era mais pelo toque do celular ou pela frase que tinha acabado de ouvir. Ela pedia desculpas, a voz suave. Ele é que tem que pedir desculpas, ora! Abusado. Ora, "meu amor"! Se eu fosse Cecília, mandava ele longe.
O celular voltou a tocar, agora na minha mão, levei um susto e bati com a cabeça no esquadro da cama, bem no momento em que o Astrogildo perguntava se não poderiam jantar juntos.
Porra! Jantar juntos?
O que está acontecendo aqui?, eu perguntei, ele também. O identificador de chamadas piscou o nome de Marta. Atendi, nem sei por quê, a cabeça dando voltas. Alô, gritei, indignado, só depois me dei conta da situação em que me encontrava e passei a sussurrar, o outro ali em cima perguntando se Cecília tinha ouvido aquilo. Fala, desgraçada, acaba com isso, murmurei, enquanto Marta tagarelava me cobrando a pensão atrasada e o raio de uma sacola. Pensou que falei desgraçada para ela e começou a esbravejar na linha, prometendo me jogar na cadeia. E desligou, furiosa, ou fui eu que desliguei, furioso, sei lá. Qual a resposta de Cecília sobre o tal jantar, mesmo?
Ouvi as risadinhas abafadas dela. "Tome aqui", disse Cecília, dengosa, "ela estava aqui, te esperando". Engoli em seco. Ele gemeu, ou resmungou, mas acho que gemeu mesmo, acho não, tenho certeza, um gemido breve, abafado por um beijo ou coisa assim. Mais que foi um gemido, ah, isso foi. Não agüentei. Imaginando a cena de safadeza que acontecia sobre a minha cabeça, sentindo vertigens como se me empurrassem num abismo, pensei em saltar para fora da cama. Celular na mão como uma arma, pronto para gritar desaforos e partir para a briga. Senti o peito apertando e o ar rarefeito. O quarto foi ficando escuro, o tapete úmido, a toalha azul, a voz do Astrogildo, os pés de Cecília, tudo foi se misturando no centro de um ciclone, e ficando pequeno, pequeno, até desaparecer.

7.

Aí acordo, a cena se repete, os pés de Cecília ao alcance dos meus lábios. Penso que tinha sonhado tudo aquilo, tento me situar no tempo e no espaço, mas não dá tempo. Entra a polícia e me prende.
O velho está morto sobre a cama. E mais nada.
Foi isso.
"Os sapatos dele não estavam onde o senhor disse.", resmungou o delegado, me encarando.
Não?
Fratelli Rossetti. Encontraram enrolado nas minhas calças. Junto com o meu tênis paraguaio, furado no mindinho. E a carteira do Astrogildo.

8.

"O velho tinha grana."
Fábio não entende nada de mulheres. Nem de pés. Nem de amor.
"Não seja injusto. Cecília não queria mais nada dele."
O delegado nos chamou de volta. Ainda bem, porque não gostei da cara que o Fábio, Doutor Fábio, fez. Cara de chulé.
"Tinha esperma do velho na toalha."
Mentira!, gritei. E pulei no pescoço do Fábio. Vieram os policiais e me jogaram no chão outra vez, e outra vez me bateram na cabeça, nas costas, nas pernas, no saco. Rosto esmagado no assoalho de madeira, vi as botas entrando na sala, se multiplicando, do mesmo jeito que tinha visto no quarto. Só os pés de Cecília, agora, estavam diferentes.
Secos, dentro de um par de sandálias primaveris, ao longe.
Gritei por ela. Pedi que me ajudasse, que confirmasse ao delegado, eu nada tinha a ver com a morte do Astrogildo. Apanhei mais.
Foi quando vi, ao lado das sandálias de Cecília, outro par de pés que eu conhecia bem. Os pés de Marta.
Algumas botas se aproximaram dos pés delas.
"A arma estava no roupeiro. Dentro de uma bolsa que tem o seu nome bordado."
"Eu sei. É a bolsa que ele levou lá de casa", murmurou Marta.
Levantaram-me. Fábio balançou a cabeça e fez um sinal com a mão. Eu estava fodido.

9.

Eu, outra vez, naquele bar. O tempo passa.
"Não quero que matem. Mas elas não devem mais caminhar. Estraçalhem os pés daquelas lésbicas."
Os três me olharam. Tinham uma dívida comigo desde a prisão. O nariz da loira, tenham uma atenção especial com ele. Deve parecer com qualquer coisa, quando vocês saírem de lá. Menos com nariz.
"Podemos roubar tudo?"
Eu sorri.
"Devem."
Eles levantaram.
Pedi mais um chope e avisei que esperaria ali mesmo. Em uma hora, não mais, estariam de volta. Marta e Cecília haviam comprado um apê ali perto.
"Só mais uma coisinha.", falei. Eles se voltaram.
"Um par de sapatos italianos. Se encontrarem, é a minha parte."

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